A linha tênue entre consumo de pacotes de dados e acesso à informação

A linha tênue entre consumo de pacotes de dados e acesso à informação

October 10, 2017 2141 By Michelle Prazeres

A trajetória das operadoras, o lucro das empresas e soluções para a democratização das mídias

Em 2015, o setor das Telecomunicações enfrentou uma queda de cinco pontos percentuais em sua receita líquida, comparado ao ano anterior, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar disso, a atividade permaneceu como o setor de serviços que gera mais receita, no ano em questão foi de R$162 bilhões. O gerente do estudo, Luiz André Paixão, apontou os serviços de streaming e aplicativos de comunicação gratuita como alguns dos responsáveis por essa queda, já que aplicativos como o WhatsApp permitem que chamadas não sejam cobradas.

No dia 5 de julho de 2017, a comissão de ciência e tecnologia do senado aprovou uma proposta que prevê que os consumidores acumulem o pacote de dados não utilizado no mês contratado. Entretanto, na sondagem realizada com 71 jovens, a conclusão é de que na maior parte das vezes o pacote de dados contratado pelo cliente não chega a durar sequer o mês inteiro, o que as faz investir ainda mais em pacotes adicionais de internet.

A maioria estudantes, entre 18 e 25 anos, alegam a contratação de um plano pós-pago, com limite acima de 5 Gigas de internet, quantidade razoável para uma geração que já nasceu conectada. Os planos adquiridos chegam a custar mais de 150 reais e ainda não satisfazem o anseio da população que navega na internet por meio do celular, isso sem contar com os pacotes extras obtidos durante o mês.

A operadora favorita da geração smartphone é a Vivo, seguida de Claro, Tim e Oi. Em ascensão, Nextel segue em quinta posição na disputa, oferecendo pacotes de internet tidos como excelentes por seus usuários.

Segundo os pesquisados, o Instagram é a rede social que mais consome internet. Devido a todos os seus atributos como os Stories, a postagem de fotos e vídeos e a própria navegação, a rede consome cerca de 8MB pela navegação constante durante cerca de meia hora. O Facebook, rede social mais utilizada do mundo, é tida como a segunda que mais consome dados. A página gera um gasto de mais ou menos 2MB a cada 5 minutos somente por sua navegação. Já o famoso WhatsApp vem em terceiro lugar na lista, entretanto o envio de mensagens por meio do app não consome tanto do pacote de dados: 20 mensagens geram em torno de 0.01MB gastos. Além dos já citados, o YouTube, Spotify, Twitter e Snapchat (apesar da queda em número de usuários) também se encontram nessa sessão. O stream de vídeos, YouTube, gasta cerca de 30 MB a cada 10 minutos, quantidade extensa para os que tentam economizar dos seus pacotes Enquanto isso, o Spotify é responsável por 16MB a cada 6 minutos de músicas escutadas e o Twitter, 8 MB a cada 5 minutos.

Usuários entre 25 e 35 anos alegam a utilização de algumas ferramentas a fim de trabalho, como o Google Maps, Waze, Google Chrome e até o WhatsApp. Segundo estes, o pacote de 3GB é suficiente para utilizar durante o mês, algumas vezes até mesmo sobrando uma parcela para ainda ser utilizada.

 

5 protestos no Twitter (com muito humor) a favor de uma #InternetJusta

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Lucro das empresas de telefonia

Apesar de estarem perdendo espaço no mercado nos últimos anos devido ao grande número de serviços de streaming e aplicativos de comunicação gratuita, as operadoras telefônicas se mantém no topo da receita de serviços.

Em 2015, ano que sucedeu uma enorme crise econômica e política, tanto a Vivo quanto a Tim se consolidaram entre as 25 empresas de maior lucro no país.

Já em 2016, ano marcado pela suposta imposição de um limite no consumo da internet fixa, o lucro da Telefônica Brasil cresceu 179% no primeiro trimestre, enquanto o da Telefônica Vivo subiu 9,6% no terceiro.

 

Quem paga a conta?

No Brasil e no mundo estamos diante de um grande divisor de muros: a desigualdade social e não por acaso, muros nunca deram certo na história mundial.

Não é o muro de Berlim e muito menos o que Trump quer construir, mas é tão devastador quanto às barreiras para a separação de povos.

A desigualdade social assola, pisa, e separa classe, gênero, educação e cultura e o muro é tão nítido quanto um materializado.

De acordo com constatações do relatório “A Distância que no Une, Um Retrato das Desigualdades Brasileiras” divulgado pela Ofxam, no Brasil, os seis maiores bilionários têm a mesma riqueza e patrimônio que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Caso o ritmo de inclusão no mercado de trabalho prossiga da forma como foram nos últimos 20 anos, as mulheres só terão os mesmos salários dos homens no ano de 2047, e apenas em 2086 haverá equiparação entre a renda média de negros e brancos.

Esse apanhado de dados resulta diretamente no consumo de pacote de dados em relação aos menos favorecidos economicamente, ou seja, um jovem da periferia não tem o mesmo acesso à internet que um jovem classe média.

“Mas hoje em dia todo mundo tem wi-fi?”

Não necessariamente o wi-fi é um investimento da família que está na linha de pobreza, o arroz e feijão do mês é obviamente uma meta, ou seja, continuarão se informando pelos canais aberto ao invés de consumir mídias alternativas pelo celular.

 

Análise dos preços segundo residentes das periferias de São Paulo

João Vinícius, 18 anos, reside na Comunidade do “Boi Malhado”, na Vila Nova Cachoeirinha.

Conta ele, que teve celular uma vez, mas acabou vendendo para juntar dinheiro. Hoje, ele consome internet pelos computadores disponíveis no CCJ (Centro Cultural da Juventude), ele não é muito de se informar e mesmo quando tinha celular não tinha plano e acabava não adquirindo acesso pela internet.

Já Sérgio Oliveira, 44 anos, residente do mesmo bairro de João, não vive sem internet por conta do trabalho. Sérgio é motorista da Uber, e depende do sinal do 4G diariamente para o sustento da família. Gastar com a mobilidade é cerca de 10% do salário que ele recebe mensalmente.

“Gostaria que não fosse um gasto meu, e sim da empresa”, relata Sérgio.

Tereza é auxiliar de limpeza e tem 36 anos.Ela conta que adora bater papo com as amigas pelo WhatsApp, diz ela que o pacote de dados nunca dura o mês inteiro, e ela acaba gastando com isso.

“Não vivo sem saber das novidades do grupo de ginástica”, afirma Tereza.

 

A comunicação democrática em questão

Em vista dos relatos e da pesquisa feita nessa reportagem, é importante democratizar o uso de internet com o objetivo de abrirem as mesmas portas para todos no quesito acesso à internet mobile.

Visando não só o consumo de redes sociais, mas também de fontes de informações.

Planejando um esboço educacional de principais mídias alternativas, criando projetos sobre “Educomunicação”, bem como o Manual da Diversidade no Jornalismo, descentralizando a informação das grandes mídias, o Brasil, poderia sentir sutis avanços de direitos iguais à informação.